“Fui hoje
trazido a esta casa para relatar minha triste história e assim servir
de alerta para muitos dos que militam na vida como pessoas consideradas
de bem. Por muito tempo tive em minhas mãos a oportunidade de instruir
outros. Convivi desde a infância com a idéia de conduzir pessoas e
para isso fui formado. Formei-me em Filosofia, Psicologia e Teologia e
logo me vi cheio de sabedoria. Entretanto, esses conhecimentos trouxeram
grande desconforto, dúvida e inquietação para minha alma, pois sem as
ferramentas da fé raciocinada não encontrava Deus em nenhuma dessas ciências
teóricas. Mesmo a Teologia ensinava de forma superficial e muito acadêmica
a idéia da Criação e sua relação com o Criador.
Após anos de
estudo e ensino em uma grande universidade e muitos conflitos íntimos,
envolvi-me com movimentos políticos em eras de mordaça. Foi quando vi
o meu mundo abrir-se para coisas com mais sentido. Porém, associei-me
aos ideais da radicalismo e exageros de homens que sequer sabiam a razão
da vida. Logo desencantei-me também com aquela feição da vida e
isolei-me profunda e irreversivelmente em meu mundo, trancando-me em mim
mesmo por quase dez anos, envolvido em tormentos e angústias de toda
ordem. Internado por cinco vezes como louco, fui submetido a toda sorte
de maus tratos que eles davam o nome de terapia. Além de não contar
com a ajuda de ninguém, ainda tinha de amargar a ironia dos que estavam
ali para cuidar dos doentes.
Um dia, decidi
dar cabo à minha vida e no auge de meu desespero bebi uma grande
quantidade do veneno a que chamavam remédio, o que me fez adormecer
para nunca mais acordar na carne. Por muito tempo fiquei dormindo ao
lado de meu corpo. Julgava-me morto com ele e via aterrorizado os germes
devorando cada parte do arcabouço carnal. Eu, preso ao corpo pelos
liames da mente, não conseguia entender como, estando morto, poderia
sentir as dores da destruição. Além disso, vozes estertorosas me
atormentavam dizendo que minha sabedoria tinha me rendido muitas glórias,
mas que naquela hora estava reduzida a nada. Davam risadas, ironizavam
meu estado, entretanto eu, que nada via além do meu corpo, não
conseguia responder a nenhum insulto. A voz não saía, pois pensava
comigo que morto não falava.
Depois de muito
sofrimento e desespero, lembrei-me de minha infância de repente. Em
minha mente fez-se uma pausa entre os tormentos e me vi criança, nos
braços de minha avó a me acariciar e contar belas histórias. Embalado
por este pensamento pensei em Deus, fiz uma desesperada prece de socorro
e adormeci de cansaço. Fui acordado por uma equipe de abnegados
“anjos” em um local aprazível, com meu corpo refeito das marcas
horríveis da decomposição. Nada entendia, mas senti grande alívio,
como se tivesse saído do inferno para o céu.
Certo tempo
depois, fui trazido juntamente com um grupo de amigos em iguais condições
a esta casa para ouvir as lições que mudariam definitivamente minha
visão de vida e do mundo. Chorei copiosamente ao ouvir as palavras do
Instrutor, que irradiava intensamente quem fazia uso da oratória.
Compreendi a razão da vida, os erros cometidos e equívocos vividos e
ensinados. Uma lição soou forte em meu Espírito: “Ai daquele que
ensinar o erro aos pequenos, pois melhor seria que amarrasse uma pedra
no pescoço e se atirasse ao mar”. Compreendi o rigor da Lei. Amigos,
foi o que aconteceu comigo. A Lei de Deus mostrou-me amargamente o
resultado do meu orgulho e a inoperância do meu saber. Grande estudioso
da alma, não sabia sequer fazer uma prece de gratidão a Deus pelos
dons recebidos.
Falhei, sofri e
retornei ao mundo verdadeiro, como um fracassado para somente mais tarde
refazer a minha caminhada, em condições que só a Deus é dado
conhecer, por ora. Submeto-me a Ele na certeza de que fará o melhor
para meu Espírito. Estou em franca recuperação e a minha lucidez
retorna pouco a pouco. Sou grato a todos os que dedicam suas vidas na
edificação de pessoas que, como eu, caminham nos escuros trilhos da
vaidade e orgulho. Que Deus vos abençoe e proteja!”. – Um Espírito
necessitado.