"Querida mamãe,
estou aqui pedindo seu perdão e a sua bênção. Mais de um ano passou,
mas a minha saudade e o meu sofrimento ainda não passaram. Não chore
mais Mãezinha. Sei que a minha ingratidão foi grande demais.
Compreendi tudo, mas era
tarde. Creia que amanheci naquela terça-feira, 4 de maio, pensando em
descobrir como ia encontrar um presente para o seu carinho no dia das
mães. Pensava nas aulas, em minha professora Juverssídia e procurava
concentrar-me nos livros para estudar; entretanto, quando vi o veneno, uma
força estranha me tomou o pensamento. Avancei para o suicídio quase sem
conhecimento, embora muitas vezes não ocultasse o desejo de morrer. Tudo
sem motivo, sem base.
A senhora me deu tudo -
amor, segurança, tranqüilidade, proteção. Não julgue que me faltasse
isso ou aquilo. O que eu sentia era uma tristeza que só aqui no Plano
Espiritual vim a entender... O assunto é tão longo e o tempo é tão
curto. Se pudesse desejava formar as minhas letras com lágrimas para que
a senhora me perdoasse pelo arrependimento que trago.
Não sei, não sei
ainda. A princípio, me vi numa nuvem com a garganta em fogo e uma dor que
não parecia ter fim. Talvez exagerasse as coisas que eu sentia, talvez
guardasse impressões da vida que eu não devia guardar. O que é mais
doloroso é que provoquei a morte do corpo, sem razão. Sofrimentos no
mundo são problemas de todos. E por isso quando me vi na sombra que me
envolvia toda, vozes me perguntavam porque fizera aquilo se eu estava
consciente de que a morte não mata ninguém...
Chorei muito, mais do
que choro hoje, até que me vi no regaço de uma senhora que me disse ser
a vovó Ana. Ela me ensinou a orar de novo, porque a dor não me deixava
trabalhar com a memória. Amparou-me e como que me limpou os olhos para
que eu enxergasse a luz do dia. Então reconheci que as trevas estavam em
mim e não fora de mim.
Fui internada numa
escola hospital, onde muitas crianças estão sob a vigilância daquele
que nos deu nome a casa de ensino Gerônimo Carlos Prado, e com a
bênção dos muitos amigos que encontrei aqui vou melhorando".
Psicografia: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
Livro: ENTRE DUAS VIDAS, de 1974